Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2014

“O meu objectivo é chegar cada vez mais longe, penso sempre: se os outros conseguem, eu vou tentar também, se não conseguir, tento até onde posso chegar”

Depois de um ano de 2013 em grande, com o triunfo na ultramaratona Spartathlon, de 245,3 km, em Atenas, Grécia, em final de Setembro, o novo ano começou da melhor forma para o flaviense João Oliveira, com o triunfo ultramaratona TransOmania, no Omã, de 300 km, em final de Janeiro. Depois de 300 km a correr sem parar, e de regresso a Portugal, João Oliveira contou À Voz de Chaves como correu mais uma prova do seu talento, mas também falou da sua carreira, e dos objectivos para o futuro.

Enquanto-atleta-da-AD-FlaviA Voz de Chaves: No início desta ultramaratona mostrava-se apreensivo, com alguns problemas físicos, mas a verdade é que chegou ao final no primeiro lugar…

João Oliveira: Tinha um problema, que ainda tenho, que é a acumulação de ácido láctico na perna. Fui tratado pelo massagista do Desportivo de Chaves, o enfermeiro Gualter Rodrigues, que foi excelente, que permitiu chegar à prova muito mais confiante. Não fui a pensar em vencer, mas sim em estar próximo do pódio.

Porque decidiu embarcar nesta aventura de fazer uma ultramaratona no deserto?

Tinha conhecimento que o Carlos Sá, o Telmo Veloso e a esposa dele tinham corrido no deserto por etapas. Eu não gosto desse tido de provas, pois quando começo uma corrida gosto de a acabar, independentemente do tempo que demore e da extensão. Apareceu esta primeira edição de longa distância ‘non-stop’ neste tipo de terreno. Recebi o convite, e tive, claro, de pagar tudo na mesma, mas aceitei. Como já era atleta de montanha e campeão de estrada, só faltava mesmo o desafio no deserto.

Como foi essa experiência de correr no deserto?

Nunca tinha visto uma duna. A única que tinha visto foi numa prova na Lagoa de Óbidos, onde alguns corredores disseram que a parte mais difícil foi as dunas e eu pensava que tinha corrido apenas na praia, e explicaram-se que eram os altos e baixos. Quando cheguei ao deserto, que foi já a partir dos 135 km de prova, é que vi o que era uma duna, pois para subir uma, demorava cerca de 20 minutos e aí sim, pensei, isto é que é uma duna. Sabia que ia ter dificuldades, mas nunca pensei que teria tantas.

Teve algumas peripécias pelo caminho nestes 300 km?

Tive de correr com uma mochila às costas, com cerca de seis quilos, algo que não estava habituado, pois a única vez que corri com mochila foi na tropa com armas. Tinha de levar para a prova material obrigatório, mais abastecimento, água, produtos sólidos, baterias, bússola, mantas, saco cama, material de enfermagem, entre outros. Corri acima dos 30 graus, pela primeira vez, e cheguei a meio a pensar, o que ando aqui a fazer, mas também pensei, sinto-me bem das pernas, apesar da dor nas descidas, e vou na frente, o que significa que os que vêm atrás são piores.

Acabou por perder-se na prova…

Foi-nos dito antes da corrida que se corrêssemos 1,5km sem vermos as balizas de sinalização era porque estávamos perdidos. Depois de passar o ponto 6, sabia que o ponto 7 estaria a 28 km, mas cheguei a uma altura em que deixei de ver placas e a última que tinha visto não tinha direção, pois os camelos do deserto tinham comido as placas. Como não tinha direção, corri para a frente e depois de 1,5km voltei para trás, depois corri para a esquerda, voltei a não encontrar nenhuma placa e pensei que seria para a direita, voltei para trás, corri para a direita e voltei a não encontrar nada. Optei por ficar à espera do segundo classificado, o sueco, que entretanto chegou e felizmente tinha um GPS. Entre o ponto 7 e ponto 8 voltei a correr sozinho, mas deixaram de haver novamente placas e optei por esperar novamente pelo sueco e fiquei sempre perto dele. Ele tinha um ritmo certo, mas mais lento que o meu, no entanto, foi uma boa opção.

Porque não levou GPS para a ultramaratona?

Primeiro porque não tinha nenhum GPS daquele tipo. Depois, não o comprei pois sabia que havia balizas de sinalização, e nunca pensei que os camelos comessem as placas.

Decidiram terminar a prova juntos, porquê?

Ao longo dos quilómetros que corremos juntos, ele também precisou da minha ajuda, pois ao subir uma duna, teve uma cãibra. Eu ia mais à frente, mas ouvi-o gritar e fui assisti-lo. Ele consumia muita coca-cola, em vez de água, e começou a arrotar muito e a ter vómitos. Tive que lhe dar a minha água pois ele já não tinha. Em relação à comida, ele comia muitas vezes umas gomas e ele quis experimentar as broas de mel que eu levava, que são feitas por encomenda. A partir daí partilhamos também a comida. A faltarem 20 km, por ideia dele, propôs terminar a prova juntos, e aceitei. A partir daí deixou de haver competição entre nós, apenas chegarmos juntos o mais depressa possível ao final.

Que tipo de apoios tem conseguido?

Em termos de apoios, não tive nenhum. Em material, gastei cerca de 200 euros. Tive alguns descontos, no saco cama graças ao Sr. Aprígio, e também nas sapatilhas, um desconto enorme. Desde que tenho conseguido bons resultados, não consegui ainda nenhum patrocínio, mas em termos de materiais, em lojas particulares, consegui enormes descontos, o que é excelente para mim. Espero que continuem a aparecer descontos e o ideal era surgirem patrocínios. Para esta prova, foi preciso gastar 1790 euros de inscrição, 717 para a viagem ida e volta, mais o material, o que envolveu quase 3000 euros. O beneficío para mim é de chegar ao fim, mas Portugal é que beneficiou, pois lá não era ‘o João Oliveira’, mas sim que ‘o português vai em primeiro’, e ‘o português ganhou’.

Qual é a realidade dos ultramaratonistas nos outros países?

Em Portugal estamos bastante atrasados, mas mesmo muito. Vê-se isso nos mundiais, pois vamos poucos atletas e não somos reconhecidos. Noutros países vêm-se os atletas a serem recebidos pelos embaixadores naqueles países. Em termos de carro de apoio, todos têm, como os coreanos, os japoneses e chineses, que estão muito avançados e têm muitos ultramaratonistas, levam um tradutor, médico e os resultados não são de destaque, apenas chegam todos ao fim. Os portugueses conseguem ter atletas nos cinco primeiros e não têm este tipo de apoio, é uma grande diferença. É uma cultura desportiva que nós estamos muito aquém.

As maratonas são provas com muito destaque mediático, enquanto as ultramaratonas não têm tanto mediatismo, os ultramaratonistas percebem porquê?

As maratonas de estrada continuam em peso, onde há mais atletas, mas nos últimos cinco anos, existem cada vez mais nos trailers de montanha. Antes eram 70 ou 80, hoje consegue-se em Portugal cerca de 200 atletas para correr 100 km. Há cada vez mais reconhecimento para com os ultras. A única diferença é que nas maratonas existe dinheiro, enquanto nos ultramaratonistas apenas o reconhecimento de chegar ao fim, pois fazemos 100, 150 ou 200 km por uma medalha.

É uma mentalidade diferente entre maratonistas e ultramaratonistas?

É muito diferente. Percebe-se pela participação, pois nas ultramaratonas não vemos nenhum africano a correr. E provavelmente têm capacidade de resistência e velocidade para correrem estas provas. Mas não há recompensa monetária.

Além de não haver prémio não tem conseguido trazer os troféus que conquista…

É verdade, tenho tido pouca sorte. Em Atenas, no campeonato do mundo de estrada, o troféu de primeiro lugar foi uma oliveira pequena, num vaso e não queriam deixar passar no aeroporto por causa da terra. Teve de vir para Portugal sem terra. Agora o troféu de primeiro lugar nos 300 km ficou também retido na alfândega, pois eles consideraram uma arma. Mas era um objectivo típico daquele local. Acabamos por correr apenas pelo prazer, pois o prémio fica lá na mesma nos sítios onde vamos [risos].

Numa corrida deste tipo, seja de 100 ou 300 km, como consegue definir que ritmo impor, ou que estratégia adoptar?

O ritmo depende do corpo. Não gosto de por muito protector solar, ou usar óculos, porque nós gerimos o esforço pela temperatura do corpo. O protector ajuda contra o sol, é verdade, mas a longas distâncias vai neutralizar a capacidade de esforço, ou seja, dá-nos a sensação de fresco, quando estamos quentes, e depois dá-se uma quebra e o atleta não percebe. Se sinto que estou quente, abrando, se me sentir frio, acelero. Corro conforme o corpo me pede.

Prefere correr sozinho ou acompanhado?

Quem corre nos primeiros lugares já sabe que terá de correr sozinho. Para correr acompanhado tem que se ceder à passada dos outros, pois temos de ir ao mesmo ritmo, o que nos cansa a nós. Todas as provas ultras são solitárias.

Todas estas estratégias estão ligadas também a um factor psicológico, além do físico.Tem formação na área, isso é importante?

Eu diria que é fundamental. Por exemplo, ter que gerir o esforço face à temperatura corporal. Se está calor abrandar, mesmo que nos sintamos bem, e com frio, mesmo cansados, correr mais, para não entrarmos em hipotermia. No deserto então, era perigoso, e nós corríamos mais à noite, para evitar a hipotermia. É preciso conhecer bem os sintomas do corpo, ter muita experiencia de corrida, para passar dificuldades, e saber o que significam os sintomas. É preciso um grande conhecimento de psicologia corporal.

Em termos de treinos, como prepara uma ultramaratona?

Eu faço em média, por dia, entre 45 a 50 km por dia, mas não seguidos, de manhã, o treino de força, e à noite, um treino mais progressivo, que tento fazer em grupo, e que é mais longo. As pessoas por vezes não gostam de sofrer, mas um ultra tem de sofrer. Se na nossa vida não tivermos um pouco de sacrifício para atingir os nossos objectivos não conseguimos.

Qual é a realidade do atletismo em Chaves?

O grupo tem sido sempre o mesmo, praticamente. Desde pequeno que têm sido as mesmas pessoas nas corridas e um dia que desapareça esta geração não sei se haverá uma próxima, pois não há grande incentivo para o atletismo, e já houve. Outeiro Seco, Abobeleira, Faiões, o Desportivo de Chaves e a AD Flaviense também já tiveram atletismo e atualmente há o ‘Chaves Running Team’, que junta todos os atletas. Gostaríamos que aparecessem novas caras, seja de que idade. O desporto faz falta à cidade, pois é sinónimo de cultura, e Chaves, em termos de cultura de atletismo, está muito fraco.

Onde começou a ‘loucura’ pela corrida?

Os meus pais nunca tiveram muitas posses, e eu muito novo ia de Santa Cruz Trindade até aos Aregos a correr, com a mochila às costas, para a escola. Ia e vinha todos os dias, mesmo com chuva. Tentava conseguir chegar aos Aregos o máximo de vezes possível sem parar, o que era difícil, pois parava sempre. Entrei depois para a vida militar e eles viam que tinha gosto para a corrida e puseram-me nos 5000 e passei rapidamente para os 10000 metros. Em Chaves, ganhei uma vez uma corrida na Madalena, e convidaram-me para começar a correr com eles. Foi nessa altura que comecei a ganhar o gosto pela corrida, aos 19, 20 anos.

Como foi evoluindo o tipo de distância a correr?

Fiz uma meia maratona em Lamego, que foi até a última edição desta prova, muito difícil, a subir, e naquela altura fazia-se 1h24 minutos, com poucos atletas a participarem. Depois, em Viseu, fiz outra meia-maratona, mais ‘soft’. E mais tarde, um professor, o Sr. Cândido, disse que tinha o sonho de fazer uma maratona, e eu disse que também queria ir, mas ele acabou por não ir e fui sozinho, em 2001, à Maratona de Lisboa. Fiz um tempo de 3h04 minutos. Mais tarde recebi um papel onde informava que numa maratona em Abril, se acabasse abaixo das três horas, além da medalha recebia um trofeu. Comecei a treinar intensivamente para baixar quatro minutos. Diziam-me que era muito tempo para melhorar, mas corri e fiz 2h59 minutos, um excelente tempo. Fiquei muito contente e comecei a ter gosto pelas maratonas e deixei de fazer tantas meias-maratonas. Dentro das maratonas, conheci os ultramaratonistas.

Ia encontrando objectivos para se superar?

Quando corri uma meia-maratona não sabia quantos quilómetros tinha. Fui correr a Lamego com o sr. Mário, do Santo Amaro, e nunca tinha feito mais do que um corta-mato, que tem 7 ou 8 km. Pensei que a meia tivesse uns 12 km. Durante a corrida, fui vendo os quilómetros a passarem e perguntei-lhe quantos quilómetros tinha, ao passarmos os 15 km, e fiquei surpreendido quando descobri que ainda faltavam seis. Quando fui correr uma maratona, já perguntei antes quantos quilómetros tinha [risos]. Tive sempre o objectivo de reduzir os tempos que fazia e procurar os lugares de troféus. Na segunda edição da Maratona Carlos Lopes, fiquei como quarto melhor português, 11º lugar na geral, o meu melhor tempo em maratona que consegui. Houve alguém mais tarde, com quem treinava quando estudava no Porto, que me disse que recuperava muito rápido, e me inscreveu numa prova de 100 km, que nem sabia que existia. Nessa prova fiz 119 km, pois perdi-me durante a prova, mas acabei perto dos 30 primeiros. No ano seguinte voltei com o objectivo de melhorar e fui ao pódio, com um terceiro lugar. Ir ao pódio passou a ser o meu objectivo nas provas.

Sentiu que as ultramaratonas é onde consegue melhores resultados?

Fui-me apercebendo que tinha mais rendimento em longa distância, conseguindo manter a mesma velocidade. Mesmo quebrando, recuperava muito depressa. Eu não tinha noção disso, mas com quem treinava avisaram-me, pois notava que após os treinos demorava pouco tempo para voltar a estar bem. Lancei-me nesta modalidade e os resultados estão a aparecer cada vez melhores. Estou-me a tornar num bom atleta, não sou o melhor, mas estou a gostar dos resultados e a sentir-me bem. O meu objectivo é chegar cada vez mais longe. Penso sempre, se os outros conseguem eu vou tentar também, se não conseguir, tento até onde posso chegar. Depois de ganhar a ultramaratona da Grécia, disseram-me para descansar, mas soube que havia uma de 300 km e decidi ir, e consegui vencer também.

Diogo Caldas

 

publicado por ChavesRunningTeam às 09:30
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